
As eleições 2008 trouxeram para a cidade do Rio um clima atípico: população nas ruas, divulgação via internet e propostas ambiciosas por parte de um candidato defensor das bandeiras do humanismo e ambientalismo, sem nunca cair no discurso utópico ou pré-fabricado. Essa foi a campanha de Fernando Gabeira, deputado que nos últimos anos se tornou o campeão da justiça no subconsciente do brasileiro - principalmente cariocas, responsáveis por sua eleição - devido à sua atuação na Câmara.
Do outro lado, já no segundo turno, encontrava-se a campanha convencional do PMDB, representado por Eduardo Paes, até então secretário dos esportes e turismo do Estado do Rio, desligado do cargo e inscrito após a data-limite. Tal campanha foi marcada desde seu início pelo grande uso de capital para propaganda - principalmente visual - com o intuito de atrair eleitores de menor renda e, portanto, com menores condições de acesso aos programas eleitorais apresentados.
Com o passar dos dias, Fernando Gabeira apresentou crescimento exponencial, agora não somente entre as elites. Vendo-se ameaçados por uma campanha composta majoritariamente por voluntários, candidatos, lobistas e governadores do Estado e da República se uniram, esquecendo-se de suas bases em prol da defesa do conservadorismo eleitoral que sempre os sustentou. Daí em diante, o nível das eleições do Rio só desceu: uso da máquina do governo para a campanha (com a inauguração de diversas UPAs 24 hrs. e propaganda veiculada em meios do Estado), distribuição de panfletos anônimos que atacavam o adversário do Partido Verde (posteriormente atribuída ao PT, representado no Presidente Lula, que deu apoio aberto a Paes) e acusações ilegítimas foram algumas das ferramentas usadas no cerco à nova política "gabeirista".
Dois pontos foram provados nesse tempo de campanha eleitoral. O primeiro é que o povo do Rio tem sim o poder de decidir nas ruas seu administrador e não apenas esperar que se decida nas mesas de debate. O segundo é que existe, há tempos, uma espécie de neocoronelismo no Brasil, onde verdadeiras quadrilhas atropelam os deveres eleitores e impõe o velho voto de cabresto, com os novos braços armados das milícias e "zonas de carência" como perfeitos currais eleitorais. Porém ficou visível o abalo sofrido por tal política. Foi necessário, recentemente, que a serpente da arcaica política brasileira saísse da toca para atacar diversas vezes, seja através de panfletos, depósitos hiperbólicos por parte de misteriosas fontes ou do uso da máquina do Estado.
Cabe agora ao povo brasileiro destruir a serpente, antes que esta volte a sua toca centenária. E decapitá-la apenas não é o bastante. É preciso que se puxe sua longa carcaça para então descobrir qual a força misteriosa que move feriados, produz milhões e manipula milícias. E tal força pode ser qualquer um: o Governador em sua incapacidade de controle do orçamento, o Presidente em sua necessidade do eterno discurso Brasil-miséria ou empresários habitantes de distantes ilhas de riquezas. Qualquer um menos Eduardo Paes, que agora se transformou na princesa na torre, refém do monstro que ajudou a criar. Paes não terá de enfrentar apenas sete cabeças, mas pelo menos treze delas: PCdoB, PFL, PT e muitas outras, já que o PMDBista criou, costurando pedaços mortos de carne política seu próprio secretariado Frankenstein. E, voltando ao assunto monstro de muitas cabeças, porque não mais 4 milhões e meio? Afinal, convenhamos amigo eleitor, eu ainda quero muito saber de onde surgiram aqueles milhões, e vocês, não?
